Pensamento positivo: origem e limites de uma ideia
A ideia de que os pensamentos moldam as circunstâncias exteriores está por todo o lado na literatura de auto-ajuda. Tem uma história, e vale a pena conhecê-la — porque explica a razão de a ideia parecer tão convincente.
De onde vem
A raiz está no movimento americano do New Thought, no século XIX, nascido de práticas de cura e ramificado em numerosas direcções. Daí parte uma linha ininterrupta que atravessa a literatura do sucesso do século XX e chega aos manuais de hoje.
O núcleo é o mesmo em todas as versões: a condição do pensamento determina a condição da vida.
O que está comprovado
Algumas coisas estão, e não é pouco. A expectativa influencia de forma mensurável a percepção da dor e a reacção ao stress; isso está bem estudado. Quem conta conseguir alguma coisa desiste mais tarde. O modo como alguém explica a si próprio um fracasso está ligado à probabilidade de voltar a tentar.
São relações reais, e chegam para explicar a força de atracção da ideia.
Onde o passo vai longe de mais
Entre «a atitude influencia a maneira como lido com as circunstâncias» e «a atitude produz as circunstâncias» há um salto para o qual não existe fundamento nenhum.
Este salto tem um reverso que raramente vem junto: se os pensamentos produzem as circunstâncias, cada um é culpado da sua própria desgraça. Quem adoece pensou mal. Quem continua pobre não o quis o suficiente.
Nos livros esta consequência quase nunca é dita em voz alta, mas impõe-se por necessidade — e atinge precisamente as pessoas que já estão em baixo. Onde isso se vê com mais clareza é na doença: dar a entender a um doente grave que a sua atitude produziu a doença acrescenta a culpa à doença.
O que isto tem que ver com a astrologia
As duas coisas são muitas vezes oferecidas lado a lado, e ambas partilham uma tentação — a de atribuir ao consulente mais poder sobre a própria vida do que na verdade tem.
A tradição astrológica mais antiga é aqui estranhamente sóbria. Parte do princípio de que uma pessoa encontra disposições e circunstâncias que não escolheu, e de que a sua margem está no modo como lida com elas. Isso é menos lisonjeiro do que a perspectiva de criar a realidade com o pensamento — e não lança sobre ninguém a culpa da sua desgraça.
Ver também: o mapa pessoal — o que descreve e o que não descreve.